A moeda americana – por Roberto Vertamatti

Segue uma pequena análise que fiz diante de um vídeo recente que dizia sobre o fim do dólar americano. A análise que faço abaixo envolve números com fontes de informação no FMI, no FED, no BCE, etc. Vamos aos números e análise:

Dados sobre os volumes armazenados de ouro pelos principais países:

  • Estados Unidos são, de longe, quem tem a maior reserva em ouro do mundo – são 8 milhões e 100 mil kg. O valor equivalente em dólar, pela cotação do ouro de hoje, em algo como 350 bilhões de dólares.
  • O segundo em reservas em ouro é a Alemanha com 3 milhões e 400 mil kg.
  • O terceiro o FMI (sim o FMI) com 3 milhões de kg.
  • A Itália tem 2 milhões e 400 mil kg.
  • A China tem 1 milhão de kg.
  • A Rússia em 700 mil kg.

Como sabemos o economista John Maynard Keynes tentou evitar, desde os primeiros entendimentos para o acordo de Bretton Woods, em 1946, que o padrão ouro lastreasse o sistema financeiro internacional. Evidentemente os números financeiros globais, já em 1946, eram muitíssimos superiores às reservas em ouro. Interessante que os Estados Unidos em 1946 quis que o padrão ouro continuasse, mas foram os responsáveis por sua extinção em 1971.

De certa forma o padrão ouro, quando estabelecido no século XIX pretendia que as nações tivessem, como garantia, uma certa quantidade de ouro para suportar as negociações com suas moedas.

Outro ponto importante – seguem os principais produtores e consumidores de petróleo no mundo. Dependendo do momento da tomada da informação, os números variam, mas a ordem de grandeza é a que segue.

Maiores produtores em milhões de barris dia:

  •  Estados Unidos 11,6
  •  Arábia Saudita 11,5
  •  Rússia 10,0
  •  Canadá 4,3
  •  China 4,2
  •  Brasil – 12º produtor mundial com 2,5

 

Maiores consumidores em milhões de barris dia:

  •  Estados Unidos 18,5
  •  China 10,2
  •  Japão 4,7
  •  Índia 3,6
  •  Rússia 3,2
  •  Brasil – 7º consumidor mundial com 2,8

A economia hoje em dia, cada vez mais digitalizada, tem títulos de curto, médio e longo prazos, de diversas modalidades, emitidos por bancos, mas principalmente por países. Para se ter uma ideia a China tem 3 trilhões e 500 bilhões de dólares em títulos em suas reservas, sendo que 95% desta reserva, são títulos do governo americano. O Brasil tem reservas de 380 bilhões de dólares, sendo 95% em títulos do governo americano.

Os países desenvolvidos conseguem negociar seus títulos de longo prazo no mercado internacional, mas é os Estados Unidos que praticamente dominam este mercado com os seus títulos. Países como o Brasil negociam os seus títulos, substancialmente, no mercado interno.

Somente com a numerologia que passei acima, podemos concluir que o vídeo que circulou recentemente, que dizia que o dólar iria virar pó, é uma grande Fake News.

É possível que a China esteja querendo valorizar um pouco a sua moeda o Yuan, então esteja querendo operar em Yuan e dar lastro em ouro (mas isto é marginal, pois sabemos quais as reservas da China).  Mesmo que a China compre todo o ouro do mundo, o valor ainda seria pequeno diante dos títulos que circulam a nível mundial (principalmente títulos do governo americano é que tem aceitação global).

Sem dúvida que o tamanho da economia americana é o grande lastro, além de ter aproveitado muito bem o seu sucesso na segunda guerra e, digamos, encaminhado as negociações mundiais tendo o dólar como referência e padrão. Os Estados Unidos tem um PIB anual de 18 trilhões de dólares. A China tem um PIB anual de 9 trilhões de dólares – é o segundo país em tamanho da economia no mundo.

Acho perfeitamente normal a China forçar um maior reconhecimento para o Yuan, pois sua economia é gigantesca, mas somente pode mudar algo da relação que temos hoje, a longo prazo, com esforços consistentes ao longo dos próximos anos, assim mesmo acho improvável no quadro e relações atuais.

Podemos também observar que o petróleo não é a grande riqueza do mundo, sem dúvida que é muito importante, mas pelos quadros de produção e consumo, as distâncias são enormes  para qualquer outro país que não seja os Estados Unidos. Além disto, os Estados Unidos, caso necessitem, podem em poucos anos, tornarem-se autossuficientes em energia, produzindo o que necessitam com o Xisto.

Nas últimas 5 décadas, houve vários movimentos mundiais para estabelecer uma outra moeda, que não o dólar, como referência. Falou-se e falasse em uma cesta de moedas incluindo, recentemente, também o Yuan, mas nunca foi além das discussões teóricas.

Um abraço e fico à disposição.

Roberto Vertamatti
Diretor de economia da ANEFAC, sócio diretor da APUS – Business Development & Consulting e, da W2CONN Consultoria, em São Paulo.  Professor FCU (Flórida), USCS, FGV, FIAP e Autor do livro “Ética nas Empresas em um Mundo Globalizado”, onde trata de assuntos relacionados a ética empresarial e como essa prática pode influenciar os profissionais de uma organização.

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